- Isso é chuva?
- Não, é o vento nos coqueiros.
- Ainda bem, já imaginou se fosse chuva? Como eu ia voltar para casa?
- Ah, você ficava por aqui mesmo... Até a chuva passar...
- Eu poderia?
- Claro!Você sabe que poderia ficar.
- Pena.
- Por quê?
- Queria que estivesse chovendo.
E então choveu a tarde toda, lavando certezas.
E então eu já não sabia se era chuva ou só o vento dos coqueiros.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Eu sou meu próprio Zidler
Amanheceu, meus olhos estavam inchados, mas eu não me importei. Tomei banho, me maquiei, me perfumei, me vesti. Usei meu batom mais vermelho.
- The show must go on.
Sorri para a minha imagem cansada no espelho. Não chorei por você, chorava por mim e mais uma constatação da minha vida. A mesma coisa, sempre a mesma resposta, chorei por causa da rotina. Senti como se eu jamais fosse um destino, um porto. Eles vêm, sugam minha alegria, meu calor, usam meu corpo e partem. Partem procurando seu destino. Sou uma passagem. Deixam-me para trás, eu que me reconstrua sozinha. Não tenha mais tristeza para dizer isso. Só resignação. Talvez eu não tenha sido feita para ser amada. Talvez eu tivesse que ser feliz assim, refazendo os corações dos pobres amantes e deixando-os partir.
- The show must go on.
Então vou me pintando, sorrindo, vendo mais um dia chegando. Mais um dia. Minha maquiagem pode estar borrada, mas meu sorriso ainda é o mesmo. Não era assim? Me olho pela última vez no espelho. Estou cansada, mas esse novo dia é uma nova promessa. Novas promessas não cumpridas. Novas pessoas que tentarão me iludir. Triste constatação, amantes presos na idéia fixa de romance, mesmo onde não há. Hollywood fez um grande estrago nessas cabecinhas jovens. Não me dou tempo para sofrer, refaço egos e reconstruo ilusões. Por que não poderia fazer isso a mim mesma? Eu sei que sou boa nisso.
- The show must go on.
- The show must go on.
Sorri para a minha imagem cansada no espelho. Não chorei por você, chorava por mim e mais uma constatação da minha vida. A mesma coisa, sempre a mesma resposta, chorei por causa da rotina. Senti como se eu jamais fosse um destino, um porto. Eles vêm, sugam minha alegria, meu calor, usam meu corpo e partem. Partem procurando seu destino. Sou uma passagem. Deixam-me para trás, eu que me reconstrua sozinha. Não tenha mais tristeza para dizer isso. Só resignação. Talvez eu não tenha sido feita para ser amada. Talvez eu tivesse que ser feliz assim, refazendo os corações dos pobres amantes e deixando-os partir.
- The show must go on.
Então vou me pintando, sorrindo, vendo mais um dia chegando. Mais um dia. Minha maquiagem pode estar borrada, mas meu sorriso ainda é o mesmo. Não era assim? Me olho pela última vez no espelho. Estou cansada, mas esse novo dia é uma nova promessa. Novas promessas não cumpridas. Novas pessoas que tentarão me iludir. Triste constatação, amantes presos na idéia fixa de romance, mesmo onde não há. Hollywood fez um grande estrago nessas cabecinhas jovens. Não me dou tempo para sofrer, refaço egos e reconstruo ilusões. Por que não poderia fazer isso a mim mesma? Eu sei que sou boa nisso.
- The show must go on.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Sempre terei Solânea
Descobri que a menina que eu fui um dia ainda vive. E quem sabe viverá eternamente. Agora você pode se perguntar: onde? Em qual dimensão este fato milagroso ocorre? Terei muito prazer em dizer: “Não se trata de outra dimensão, isto ocorre em Solânea, cidade de meus avós e onde minha mãe cresceu.”Lá eu me transformo na menina que nunca morreu. Na menina que lá passava as férias, que mexia nas agulhas do avô (que é alfaiate) tentando costurar (o que não sabe fazer até hoje!), que fazia de um quintal um reino, que sempre encontrava florestas encantadas em simples plantações de milho, que era o que queria ser sem se preocupar com nada. Só agora vejo o que meus olhos adultos não enxergavam. Aquela menina ainda estava lá, esperando a mulher que se tornaria, para ajudá-la a lembrar-se que a vida nunca é aquilo que pensamos, pois as mudanças ocorrem sempre. Lembra dos sonhos esquecidos, dos medos, superados ou não, de tudo o que foi tão bonito, tão simples. Palavras não descreveriam o que senti quando a vi pela primeira vez.Ela estava costurando na máquina do avô, costurando mais os dedos do que o pano, mas achava que quando crescesse costuraria um vestido de princesa. Alinhavado com ouro e prata, como o da moça da história da Moura-Torta.Também revi com os olhos dela o meu avô. Meu avô mágico, bravo, com tantas aventuras pelo “mundão afora”, e todo o sentimento de orgulho voltou. Acrescentou-se o orgulho dos bisavôs revolucionários que morreram pelo que acreditavam.Vi a minha menina e acreditei que eu poderia fazer melhor, não por mim, mas por ela, que onde quer que esteja está esperando o dia que conseguirá costurar seu vestido de ouro e prata.
(Texto antigo, na época eu tinha 17, o que me faz pensar: SOU UMA VELHA!)
(Texto antigo, na época eu tinha 17, o que me faz pensar: SOU UMA VELHA!)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
O bosque das mangueiras
Quando eu era menina e ainda estudava numa escola do bairro eu costumava passar todos os dias no “Bosque das Mangueiras”. Bem, não era exatamente um bosque e nem tinha apenas mangueiras, mas o nome me parecia tão bonito que eu o chamava assim. Na verdade o “bosque” eram apenas duas quadras baldias com algumas poucas árvores, umas vinte, para se ter idéia. Para passar pelo “bosque” tinha de ser feito um trajeto mais longo, e eu o fazia todos os dias. Perto dali existia um casa que colecionava primaveras e elas eram tão grandes que passavam pelo muro e davam para a rua, na ida para a escola eu as levava para a professora, a “tia”, na volta eu as trazia para minha mãe. Lembro-me que quando chovia, mangas verdes caíam e eu as transformava em bois, cachorros, gatos, pessoas, enfim tudo que eu pudesse inventar com manguinhas e palitos de fósforo. Hoje já não tem mais mangueiras nem flores pelo caminho, no lugar construíram duas igrejas evangélicas e uma escola pública. Ainda tento sentir o cheirinho de barro molhado e as muitas frutinhas derrubadas pela chuva do dia anterior, mas, como era de se esperar, não sinto nada. Só lamento que tenham acabado com o meu local sagrado, onde até hoje eu tento reencontrar a menina que catava flores e mangas e era mais feliz que a mulher de agora.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Light my candle
- E então? Vamos sair esse final de semana?
- Não sei, estou meio triste. Deprê. Que emo! Há há.
- Não tem problema – meu coração dispara - você quer vir para cá? Eu cuido de você.
Então tá. Vamos à lista:
Casa. Ok.
Vinho. Ok.
Chocolate. Ok.
Lasanha. Ok.
Velas. Velas?
Sério que eu vou ascender velas na casa? Gente, é mais sério que eu pensava. Estou ficando ridícula! Brega! Cafona! Previsível! Bem, vamos lá, sem velas. Muito óbvio. Pensando bem: vamos analisar a frase: “Eu cuido de você”. Isso por si só já é muito óbvio. Esquece tudo isso. Nunca ia dar certo. Vou ligar, dizer que... que... adoeci! Enxaqueca. Não, é melhor doença contagiosa. Catapora! Mas eu já tive catapora e todo mundo sabe da história do dia que eu fiquei roxa de tanto remédio. Então é melhor eu ser bem sincera e dizer que não estou a fim de me envolver, sabe, não gosto de me envolver com as pessoas pelas quais estou apaixonada. Então vou me envolver com quem? Maldita hora! Hora? Quase nove horas! Já tomei banho, passei perfume, um batonzinho para não deixar marcas. Marcas? Quais marcas? Vamos tomar um vinho, conversar, estou aqui para curar uma depressãozinha, não para deixar marcas. Ok, vamos analisar a seguinte situação: uma pessoa convida outra pessoa para tomar um vinho na sua casa deserta, com chocolate e lasanha, e se quiser, pode passar a noite. Alguém realmente acredita que vai ser só isso? Não. Ou talvez sim. Eu não me lembro de ter especificado nada, ou de ter recebido alguma especificação. E especificamente: o que a gente teve até agora? Uns olhares, umas fotos trocadas, uns elogios. E acabou-se. E um convite e uma troca de telefone e só. E uns momentos de proximidade
- Teu cabelo tá caindo no seu olho. – passa a mão na minha testa
- Que postura linda que você tem! – passa a mão nas minhas costas
- Isso é um sinal de nascença? – passa a mão no meu pescoço. Neste momento eu queria ter o corpo todo cheio de marcas de nascença, só para saber se seria acariciada em cada uma delas.
Nove e dez. E nada. É isso. Tanta besteira, tanta coisa, tanta vela e acabou que nada aconteceu. É uma pena, lasanha tava até boa. Vou ao meu quarto e desencavo uma carteira de cigarros guardada para esses momentos. Tem explicação: são em momentos assim que eu tenho vontade de morrer, sou covarde e não consigo me matar, então me mato aos pouquinhos. Acendo uma vela para me poupar o trabalho de ficar riscando fósforos. Acabo acendendo todas as velas que comprei. Poxa, ficou até bonito o resultado final. Agora só serei eu, minhas lindas velas e duas garrafas de vinho. Amanhã serei eu e minha ressaca. Sorrio triste. Não vou chorar.
Campainha. Campainha? Escondo novamente a carteira de cigarros. Seco uma lágrima teimosa do canto do olho. Corro para a porta.
- Desculpa o atraso?
- Desculpo. Entra.
- Nossa, que lindas essa velas. Seus olhos estão brilhando...
- Impressão sua.
- Não sei, estou meio triste. Deprê. Que emo! Há há.
- Não tem problema – meu coração dispara - você quer vir para cá? Eu cuido de você.
Então tá. Vamos à lista:
Casa. Ok.
Vinho. Ok.
Chocolate. Ok.
Lasanha. Ok.
Velas. Velas?
Sério que eu vou ascender velas na casa? Gente, é mais sério que eu pensava. Estou ficando ridícula! Brega! Cafona! Previsível! Bem, vamos lá, sem velas. Muito óbvio. Pensando bem: vamos analisar a frase: “Eu cuido de você”. Isso por si só já é muito óbvio. Esquece tudo isso. Nunca ia dar certo. Vou ligar, dizer que... que... adoeci! Enxaqueca. Não, é melhor doença contagiosa. Catapora! Mas eu já tive catapora e todo mundo sabe da história do dia que eu fiquei roxa de tanto remédio. Então é melhor eu ser bem sincera e dizer que não estou a fim de me envolver, sabe, não gosto de me envolver com as pessoas pelas quais estou apaixonada. Então vou me envolver com quem? Maldita hora! Hora? Quase nove horas! Já tomei banho, passei perfume, um batonzinho para não deixar marcas. Marcas? Quais marcas? Vamos tomar um vinho, conversar, estou aqui para curar uma depressãozinha, não para deixar marcas. Ok, vamos analisar a seguinte situação: uma pessoa convida outra pessoa para tomar um vinho na sua casa deserta, com chocolate e lasanha, e se quiser, pode passar a noite. Alguém realmente acredita que vai ser só isso? Não. Ou talvez sim. Eu não me lembro de ter especificado nada, ou de ter recebido alguma especificação. E especificamente: o que a gente teve até agora? Uns olhares, umas fotos trocadas, uns elogios. E acabou-se. E um convite e uma troca de telefone e só. E uns momentos de proximidade
- Teu cabelo tá caindo no seu olho. – passa a mão na minha testa
- Que postura linda que você tem! – passa a mão nas minhas costas
- Isso é um sinal de nascença? – passa a mão no meu pescoço. Neste momento eu queria ter o corpo todo cheio de marcas de nascença, só para saber se seria acariciada em cada uma delas.
Nove e dez. E nada. É isso. Tanta besteira, tanta coisa, tanta vela e acabou que nada aconteceu. É uma pena, lasanha tava até boa. Vou ao meu quarto e desencavo uma carteira de cigarros guardada para esses momentos. Tem explicação: são em momentos assim que eu tenho vontade de morrer, sou covarde e não consigo me matar, então me mato aos pouquinhos. Acendo uma vela para me poupar o trabalho de ficar riscando fósforos. Acabo acendendo todas as velas que comprei. Poxa, ficou até bonito o resultado final. Agora só serei eu, minhas lindas velas e duas garrafas de vinho. Amanhã serei eu e minha ressaca. Sorrio triste. Não vou chorar.
Campainha. Campainha? Escondo novamente a carteira de cigarros. Seco uma lágrima teimosa do canto do olho. Corro para a porta.
- Desculpa o atraso?
- Desculpo. Entra.
- Nossa, que lindas essa velas. Seus olhos estão brilhando...
- Impressão sua.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Bom dia, princesa!
O meio dia grita lá fora. Os compromissos estão fazendo eco pelas paredes da casa mal mobiliada. Os CDs estão acumulados ao lado do notebook, que está carregando no chão. Numa outra tomada as baterias usadas na noite anterior estão com o sinal de que já completaram a carga. Meu colchão está no chão, me arrasto pelo chão e puxo o recarregador da parede. Meu celular alerta: “fotos praia falta uma hora”. Olho para os lados. Onde eu pus a câmera? Ok, vou levantar. A sala toda pintada de branco está sem cortinas, e eu não estava preparada para tanta luz. Virei morcego, seguro na parede, “merda de luz, ainda pinto tudo de preto”. Minha câmera não está na sala. Meus livros, minhas sandálias de salto alto, e minha melhor calça jeans estão na sala, pelo chão, da câmera nem sinal. Vou até a cozinha, seguindo um reflexo condicionado ligo a chaleira e preparo o pó de café. Nota mental: o café está acabando. Vou lavar minha xícara e uma colher. Onde está o açúcar? Nota mental 2: o açúcar já acabou. Café com mel fica bom? Bora experimentar! Quem sabe de uma manhã de ressaca nasce uma receita que revolucionará a maneira de tomar café? A câmera! Não sei por que, mas a câmera está confraternizando com o pingüim dark que fica em cima da geladeira. Alívio, eu realmente não lembrava onde a tinha posto. Volto ao meu quarto, sento no colchão e coloco as baterias na câmera.Começo a passar devagar as fotos. “Não me lembrava dessa foto”, “Essa ficou boa”, “Essa não. Apaga”. Eu ainda estou acordando, vai ver por isso não estava lembrando. De repente vejo, era a foto que era o grande motivo de tudo. Agora vejo. Era o sorriso mais bonito do mundo. Os olhos brilhavam tanto que nem usei flash. Aquela luz do restaurante estava péssima e mudava a todo instante. Lembro que lembrei que o açúcar estava no fim e afanei uns saquinhos de açúcar da sala de espera do restaurante, estão na bolsa. A bolsa está...? No chão ao lado da “cama”. Um saquinho arrebentou, e a bolsa está cheia de formigas. Os outros estão aqui. Fico sentada, com a câmera na mão, olhando o visor digital e um sorriso que valia uma moldura, na outra mão uns dois saquinhos de açúcar. E como fundo musical: água que ferve. O café! E o celular: “fotos praia falta 45 minutos”. As fotos! E a dor das picadas. As formigas! Deixo o cartão de memória descarregando no notebook. Corro para a cozinha, enquanto o café côa, tomo banho e me arrumo. Um dia ressacado que começa ao meio dia. Mastigo enquanto me penteio, bebo meu café (com açúcar e algumas formigas) e arrumo minhas coisas em outra bolsa, pego os cartões de memória equilibrando o celular no ombro dizendo que vou me atrasar 15 minutos para as fotos. Cubro meu rosto cansado com os óculos big e começo uma nova busca pela casa, perdi as chaves. Debaixo do meu braço a bolsa, big também, começa a vibrar. Mensagem no meu celular: “Vc acordou bem? Q hora passo aí p/ pegar a foto q vc fez d mim ontem?”. Fico parada no meio da sala sem móveis com uma calça jeans ao avesso na mão e um celular me trazendo um sorriso na outra.
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